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por Roberto Ferreira
DESABAFO DE UM PROFESSOR...
Certa vez, ouvi de um aluno a seguinte pergunta: “Professor, você trabalha? (???) Como assim? Várias respostas vieram à minha mente, umas que nem poderia citar. Então, lívido, e respirando quase que anaerobicamente, indaguei o que aquela pergunta queria dizer. “Você faz outra coisa além de dar aula?” Sim, respondi. Faço pautas, preparo aulas, pesquiso, crio apostilas, construo, desconstruo, altero, invento e reinvento a cada dia. “Só?”. Enfim, desisti da pergunta e passei à reflexão. E percebi que, durante muito tempo, ser professor parecia algo como “extra” ou “não deu certo, coitado, virou professor”. Bem, hoje já não se pensa tanto assim. E bom que não se pense mesmo, pois ser professor é uma arte, a arte de ensinar o pouco que se sabe. Ser professor é ensinar algo e acreditar que se faz compreender; é acreditar que hoje você será mais inteligente do que ontem pelo simples motivo de ter me ouvido. E, se não ouviu, resta ainda a esperança de que anotou e que, um dia, lembrar-se-á de mim. Mas, se ainda assim não tiver anotado, resta a última esperança: a de se lembrar de copiar de quem copiou. Porque, quem copiou, copiou de mim. Se nada disso acontecer, resta-nos o Google! Ser professor é ensinar, sem saber tudo; é fazer terapia em grupo, sem mesmo ser psicólogo; é educar, sem mesmo ter a obrigação de ser pai. É falar de várias coisas, entre elas, da vida, do cotidiano, do passado para que se pense no futuro de forma mais confiante; é saber quando errou, e não apenas “se enganou”; é voltar atrás, mesmo que isso lhe custe a confiança de alguns. Ninguém “vira” professor, como ninguém vira médico ou advogado pelo simples exercício da profissão. É preciso dedicação, tempo, capacidade de transmissão de pensamento sem interrupção, e quando ela ocorre – porque sempre ocorre – voltar ao ponto de parada como se nada tivesse acontecido para que a linha de raciocínio não se fragmente. Ser professor não é ser malabarista, mágico, palhaço, comediante. Embora, isso nos ajude a disfarçar o cansaço, a tristeza, os problemas, as preocupações e tornar o seu dia menos entediante. Ser professor, então, não é “falta de opção ou de emprego”, mas um tempo dedicado a um ou mais assuntos que farão com que você, um dia, seja melhor hoje do que foi ontem; e melhor amanhã do que é hoje, mesmo que não perceba, mesmo que não sinta... Não se preocupe em amar o seu professor. Respeitá-lo já é o suficiente num mundo em que muitas das relações baseiam-se em chips e telas de LCD, num mundo em que, com um único clic, um vasto conhecimento de informações e imagens muito mais agradáveis torna o seu saber mais... “interessante”. Mas, lembre-se: se cair, se chorar, se precisar de um ombro amigo, algum professor estará lá para lhe dizer, nem que seja apenas: “Fique bem!”. O Google não poderá fazê-lo... E acredite: sou mais feliz, sou mais rico, sou mais inteligente, pelo simples fato de tê-lo conhecido, pois o conhecimento gera mudança e a mudança gera crescimento. Só por isso, meu muito obrigado... Se sou professor, é porque tenho você. E isso faz o meu dia de hoje ser realmente especial!