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CONTOSDizem os antigos que, certa vez, Deus, manuseando seu cajado, espirrou sobre ele e, acidentalmente, criou uma alma que se repartiu em duas. Encantado com o feito impensado – até porque Deus espirra certo em hora errada – resolveu enviá-las à Terra e chamou-lhes de Maria Clara e Maria Rita. A primeira veio irmã de Maria Madalena e a segunda, irmã de Judas Iscariotes. Como rico e pobre sempre se estranham, as duas almas gêmeas começaram aí suas desavenças. Com a morte de Cristo, o enforcamento de Judas e a santificação de Maria Madalena, as duas Marias – Clara e Rita – tiveram várias divergências ao longo da eternidade e, para se purificarem, retornaram à Terra várias vezes. Certa vez, na Idade Média, Maria Clara veio bispo da Inquisição e Maria Rita curandeira de uma pequena vila no interior deste conto. Conclusão: fogueira acesa, Exéquias, expiação e a feiticeira queimada em praça pública, animando o domingo enfadonho da pobretada morta de fome. Em outro momento, Maria Clara, nos idos meados do século XIX, concumbina de Monsieur, o barão Haussmann que, àquela época, pensava em revitalizar a velha Paris, sussurrou em seu ouvido a remoção dos pobres da capital, num eixo centro-periferia e a construção de cafés e boulevares para a burguesada parisiense. Tudo muito discreto, como convinha a uma concumbina. Feliz pela “sua” brilhante ideia, o barão executou as obras e a pobre de Maria Rita, subalterna de Maria Clara, mudou-se para uma banlieue rouge. No século XX, com o advento da modernização da Modernidade, Maria Clara asfaltou ruas, embelezou praças, aterrou mangues e atropelou Maria Rita numa das tranversais deste mesmo conto, local em que Maria Rita era empregada doméstica e não tinha como se esquivar dos automóveis em alta velocidade, já que as calçadas eram perigosas, ou por serem estreitas demais, ou por conterem indivíduos estranhos que transitavam de um lado para o outro das páginas. As duas, cansadas de tanta encarnação, solicitaram uma audiência com o Altíssimo e expuseram seus problemas, cada uma à sua maneira. Após pensar divinamente, Deus então perguntou o que sugeriam. Maria Clara, toda cheia de si, pediu que se transformasse em algo grande, algo além da humanidade, e que não fosse esquecida por ninguém, e que todos concordassem em uníssono ao mencionar o seu nome. Maria Rita, de origem humilde e com medo do pedido, já que carregava o carma de ser descendente de um algoz do Filho do Altíssimo, solicitou algo mais eterno, mas que ensinasse alguma coisa aos outros, principalmente aos soberbos e egocêntricos. E, assim, Deus o fez. Maria Clara transformou-se na prepotência, na arrogância e na insipiência socializada, decretada por todos aqueles que tem grande dificuldade de enxergar o além do cordão umbilical. Maria Rita conheceu o escravo Esopo, apaixonou-se e tornou-se a Moral de todas as suas histórias, de todas as suas fábulas, como “a raposa e as uvas”,” as lebres e as rãs”, “o ganso e o cisne”. Moral da história (ou Moral Maria Rita): não é preciso várias encarnações para se fazer o bem; não é preciso grandes feitos para se tornar melhor. Basta, na verdade, um pequeno esforço de solidariedade e o aumento da proximidade... seja de classes... seja de seres humanos!
por Roberto Ferreira
MARIA CLARA e MARIA RITA (ou "O CONTO DO FLAGELO SOCIAL")